Carta ao Policial Sísifo – por Plauto Ferreira (PM/CE)

Caro Sísifo, nesta semana retornei ao lado norte do monte, foram três anos de distanciamento, pois, como sabes, estava com o nosso amigo Robertus, empurrando a pedra pelo lado sul, onde acreditávamos, mesmo com a incredulidade dos plebeus e publicanos – talvez atordoados por phobos (deus do medo), pois assim pedia seu pai Ares (deus da guerra) – que lá teríamos êxito. Infelizmente amigo, naquele lado o sol se põe mais cedo e caímos em várias armadilhas, nem sabíamos quem era amigo ou inimigo. Quando menos esperávamos a pedra rolava morro abaixo.

Como disse, retornei ao lado norte, foi uma longa jornada de volta. Chegando lá encontrei vários colegas cansados de carregar a pedra até o cume do monte e vê-la rolar antes mesmo de descansar o mal-tratado corpo. Mas, permaneciam firmes junto ao monte. Parece que esquecem instantaneamente do fracasso e retornam ao trabalho. Isso me deixou preocupado, pois o homem é o único animal que se constrói pela lembrança, pela recordação e pela saudade, e se desconstrói pelo esquecimento e pelo modo ativo com que consegue deixar de lembrar, como bem disse DaMatta.

Na noite de ontem, quando estava no monte, Zeus, com todo seu poder, parecia querer me avisar, por meio de raios e trovões, que aquilo não daria certo, visto que você tenta repetidas vezes e a pedra sempre volta a rolar. Sei disso e estou tentando avisar ao Grande Líder que esse trabalho é em vão, mas infelizmente não me deixam chegar até a ele.

Certo dia estive com um dos chefes do Grande Líder e o alertei do erro, mas ele me disse que a plebe gosta de ver o vão esforço dos nossos nobres guerreiros trabalhando, mesmo sabendo que não irão atingir o objetivo. Sei que trabalho indica a ideia de construção do homem pelo homem. Um controle da vida e do mundo pela sociedade e suas rotinas são marcadas pela racionalidade, mas creio que todo esse esforço que estou fazendo com os nossos colegas policiais é irracional. Visto que, a pedra vai rolar morro abaixo e a situação não irá se alterar, pela simples razão de estarmos usando a mesma estratégia que não vem dando certo há anos.

Fortaleza, inverno de 2011.

PLAUTO ROBERTO DE LIMA FERREIRA – POLICIAL MILITAR

*Sísifo tornou-se conhecido por executar um trabalho rotineiro e cansativo. Tratava-se de um castigo para mostrar-lhe que os mortais não têm a liberdade dos deuses. Os mortais têm a liberdade de escolha, devendo, pois, concentrar-se nos afazeres da vida cotidiana, vivendo-a em sua plenitude, tornando-se criativos na repetição e na monotonia.

Anúncios
Esse post foi publicado em Segurança Pública e marcado . Guardar link permanente.

Uma resposta para Carta ao Policial Sísifo – por Plauto Ferreira (PM/CE)

  1. Pingback: Tweets that mention Carta ao Policial Sísifo – por Plauto Ferreira (PM/CE) | Segurança e Democracia -- Topsy.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s