Seminário discute o desafio das trabalhadoras da segurança

Mulheres. Quando o tema é segurança, elas geralmente aparecem no papel de vítimas de violência, carentes do apoio do Estado. Aparentemente indefesas, fisicamente mais fracas, acabam muitas vezes sendo submetidas a homens que exacerbam os preconceitos antigos de uma sociedade ainda machista e apelam para a violência. Mas elas nem sempre estão do lado mais fraco da corda.

No Seminário Internacional Mulheres e Segurança Pública, que acontece até 9 de março em Porto Alegre, elas mostram que a situação pode se inverter e que podem ser também um braço do Estado no combate à violência na sociedade. Diante de cerca de 600 pessoas, incluindo o secretário estadual da Segurança Pública, Airton Michels, trabalhadoras da segurança pública falam sobre seu papel como investigadoras de polícia, agentes penitenciárias, peritas, policiais civis e militares etc.

Apesar do desafio do preconceito em um setor historicamente masculino – e ainda visto assim por muita gente -, as mulheres foram tomando os espaços. Mas não foi – e não é – fácil.  “Usamos uniformes de padrão masculino e armas feitas para o manuseio dos homens. E temos que nos masculinizar para parecermos fortes”, disse a delegada penitenciária Maria José Diniz em um dos paineis da extensa programação. A situação foi confirmada pela pesquisa realizada por e-mail pelos professores José Vicente Tavares e Dani Rudnicki, respondida por mais de 10% das trabalhadoras da área segurança, na qual constataram que apenas uma minoria recebe uniformes e coletes feitos para vestir um corpo feminino.

Maioria das trabalhadoras nunca sofreu assédio sexual

Os dados coletados por eles, aliás, retratam o tamanho do desafio. Parte dele específico das mulheres, parte enfrentado por todos os profissionais da área. Cerca de 40% das servidoras diz já ter sentido discriminação algumas vezes, e quase o mesmo número já foi preterida de algum cargo que almejava. Do total de e-mails respondidos, 86,7% se declaram brancas e predominam os salários baixos, até R$ 3 mil. Mais da metade não tem nenhuma vida na comunidade, como participação em partidos, igrejas, sindicatos, associações de pais ou entidades de bairro. “Como querer que elas tenham uma atuação comunitária na vida profissional se elas não têm na vida privada?”, questiona Tavares.

Mas também foi possível constatar que houve avanços. Mais de 80% das mulheres nunca sofreu violência por alguém condenado ou suspeito de ato ilícito. Se isso acontece, a mulher está desprotegida, já que 66% não tem qualquer tipo de seguro de vida e contra acidentes. Surpreende positivamente que a grande maioria nunca sofreu assédio sexual. Um terço tem ensino superior completo, número relativamente alto.

Maioria masculina também nos presídios

Além das dificuldades enfrentadas no dia-a-dia das casas prisionais, a delegada penitenciária falou do desafio que as 1.333 mulheres que trabalham em presídios no RS ainda têm pela frente. Das 94 casas prisionais gaúchas, apenas 11 são comandadas por elas. “Jamais esperam que a gente trabalhe em prisões masculinas. Nosso trabalho se resume às revistas femininas, às prisões de mulheres e ao administrativo”, critica.

“Ainda não temos auxílio-creche nem normatização interna que oriente as gestantes em trabalho administrativo”, acrescenta a delegada de polícia Nadine Anflor. Ela pede ao governo do estado que preste atenção nessa realidade e reserve vagas às mulheres na Polícia Civil. Isso que, em comparação, a situação lá não é tão ruim. Na Polícia Civil, 30% dos profissionais são mulheres, enquanto elas representam apenas 9,79% da Brigada Militar. E em outros lugares a desigualdade é ainda maior, como no Batalhão de Operações Especiais do Rio de Janeiro, o Bope, onde há seis mulheres para 507 homens.

As mulheres que trabalham na área de segurança têm que provar a cada dia que são capazes de fazer o mesmo trabalho que os homens, mas têm o alento de que a luta não é de hoje e muito já se conquistou. Elas sabem que da conquista delas depende a consolidação da democracia no Brasil. “Feminismo não é o contrário de machismo. Ser feminista é querer uma sociedade mais justa, em que um sexo não oprima o outro. E é isso que queremos na segurança pública”, conclui Nadine.

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