Diamantes de sangue, desamparo de ferro e vínculos de ouro: debatendo juventude e violência

Texto de Fernanda Bassani

Trabalhando há cerca de 10 anos como psicóloga no sistema penitenciário do RS adquiri o peculiar hábito de assistir filmes sempre antenada na possibilidade de utilizá-los em trabalhos grupais com presos, sobretudo presos jovens (que é o grupo com o qual focalizo minhas ações). Considero o trabalho terapêutico com filmes em prisões altamente produtivo, pois é capaz de ativar debates e reflexões integradoras, além do que não exige planejamentos de longo prazo, quase sempre infrutíferos em territórios instáveis como as prisões.

Nessa perspectiva, me deparei no último sábado com o  filme Diamante de Sangue que é, para mim, um desses clássicos do cinema contemporâneo que tem o poder de conectar a gente diretamente com a dor do mundo. Uma dor que é universalizante, pois em tempos de Globalização, nossas decisões, ações e mesmo, omissões, acabam sempre repercutindo em outras partes do mundo, seja perpetuando opressões, seja produzindo pontos de luz e libertação. Logo, nada mais justo, que a dor de lá retumbe, faça eco, com a dor de cá.

Ambientado na guerra civil de Serra Leoa da década de 90, o filme revela o caos social que a disputa por diamantes produziu no país. A presença de forças paramilitares, as reações violentas do governo, a interferência de mercenários, movidos pelo desejo selvagem por diamantes (e o controle bélico que deles resultaria), mostra uma progressiva desvinculação da condição humana, ou o que o filosofo Agambem chamaria de retorno a “vida nua”, onde o ser humano passa a ser apenas um ser vivente, pedaço de carne, sem implicação subjetiva ou política (Agambem, G. Homo Sacer, 2007).

Mas o que Serra Leoa e os seus diamantes teriam a ver conosco, Portoalegrenses ? O que a guerra selvagem daqueles africanos poderia ter de relação com nosso cotidiano civilizado, onde se recolhem impostos e se cumprem deveres civis? Ou ao menos, o que eu teria visto de coincidente entre o drama africano e a realidade dos jovens presos?

Muita coisa. E eu acho que isso é o mais fantástico do filme: ele permite que cada um  pense sobre as suas próprias guerras urbanas. Assim como em Serra Leoa, aqui em Porto Alegre também vigoram espaços de conflito, onde entes governamentais, organizações criminais e “mercenários”  se veem envolvidos em conflitos civis que, diariamente, apresentam seus mortos: os jovens das periferias (Ministério da Justiça afirma que as maiores vítimas da violência criminal são homens, pobres,  entre 18 e 24 anos. Fonte: Mapa da Violência 2011-Instituto Sangari). Pelo que guerreiam? Por pedras, aqui também. Porém pedras menos brilhosas que os diamantes. Aqui, são as pedras de crack o alvo da guerra.

Apesar da grande violência apresentada  o filme também mostra a possibilidade de um movimento outro,  uma resistência à guerra diária que procura reduzir seres humanas à meros “seres viventes”. Lá, a resistência aparece na figura do pai, que tem seu filho capturado por uma organização paramilitar para  integrar um exercito de crianças e jovens( estima-se que a África possua em média 200.000 soldados mirins), onde receberá ensinamentos, “aceitação” dos comandantes e será moldado para matar. Pai que resolve investir no vínculo afetivo e  ao reencontrá-lo aciona a condição subjetiva do jovem, sua identidade civilizatória e consegue sair da mina com seu verdadeiro diamante: o filho.

Mas e aqui no Brasil, quantos jovens integram o Exercito das Drogas? Será mais do que os 200.000 jovens africanos? O certo é: conflitividade social gera desamparo, e em tempos de desamparo a aproximação ao trafico de drogas, pode tornar-se uma estratégia de aceitação social, empoderamento e segurança subjetiva para os jovens de nossas cidades. Nessa lógica, arma vira poder. E enfrentamentos violentos, viram formas possíveis de expressar a dor do mundo. Que está neles. Que eu pude sentir ao assistir ao filme Diamante de Sangue. E que assisto diariamante no atendimento aos jovens que habitam as prisões do RS.

Não se sabe ao certo quantos jovens engrossam as fileiras do Exercito das Drogas no Brasil. Sei que no Rio Grande do Sul, 15.000 jovens entre 18 e 29 anos encontram-se atrás das grades. Sei também que no Presídio Central de Porto Alegre – alvo de inúmeras discussões midiáticas nos últimos dias por conta de sua situação estrutural – aproximadamente 7 em cada 10 pessoas que  lá ingressam são jovens (Fonte: Mapa Carcerário-SUSEPE-O4/12).  Aqui, a metáfora do pai afetivo talvez não funcione. Eles são raros e não costumam ir a presídios, que é lugar por excelência das mães. Além disso, arrisco a dizer que o “atrás das grades” é um lugar tão difícil de alcançar quanto uma base paramilitar em Serra Leoa. Aqui, no “atrás das grades”,  também existem os comandantes doutrinadores (mais velhos, mas que já foram jovens desamparados há bem pouco tempo atrás) que pregam a violência como forma de solução dos conflitos.

E como interferir nisso? Acho que o filme dá toda a dica: a partir do vínculo. Vinculo afetivo. Olho-no-olho. Crença no jovem e não no bandido. O jovem precisa entender que existem outras formas de expressar sua dor que não pela violência. Arte, cultura, escuta à singularidade, às potencialidades. Políticas públicas para a juventude em situação de prisão – altamente necessárias – devem apenas servir como suporte a essa postura humana necessária e rara. Não substituem o papo reto, jamais. Voto nisso para que nossa terra não fique vermelha de sangue, assim como é a terra de Serra Leoa.

*Psicóloga

Mestranda em Psicologia Social e Institucional/UFRGS

Trabalha na Coordenadoria da Juventude da Susepe-SSP/RS

Anúncios
Esse post foi publicado em Segurança Pública e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s